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AQC entrevista: Adriano Diogo sobre Henfil

Esta série de entrevistas é uma iniciativa da AQC em apoio ao livro “Sick da Vida”, coletânea de entrevistas do cartunista Henfil organizadas pelo quadrinhista, jornalista, escritor e biógrafo Gonçalo Silva Jr. O livro foi lançado na plataforma Catarse pela Editora Noir. Por isso, pedimos que você apoie, compartilhe e comente. https://www.catarse.me/henfil

1. Como você conheceu o trabalho do Henfil?

Eu comecei a ter contato com o trabalho do Henfil nas primeiras edições do jornal O Pasquim. Entrei na USP em 1969, não lembro direito quando o Pasquim foi fundado, só sei que era distribuído nos centros acadêmicos da USP quase escondido, como se fosse um panfleto proibido com aquela diagramação… e aí comecei a conhecer o Henfil. Na realidade conheci o Henfil, o Jaguar, o Ziraldo era um pouco mais conhecido; mais as coisas do Ziraldo, do Zélio e da Ciça. Tinha o Fradão e o Fradinho (Comprido e Baixim), então aqueles personagens do Henfil. Já começava a falar da ditadura, ilustrava aquelas enormes entrevistas do Pasquim. Lógico que eu sabia que ele irmão do Betinho e andavam militando em Santo André, na clandestinidade. Eu sabia que eram mineiros e comecei a ler tudo sobre o Henfil e me impressionou muito. Na nossa escola nós recortávamos o Pasquim para fazer mural, jornalzinho, era muito interessante.

2. Qual foi o impacto inicial?

O impacto inicial foi muito forte, porque era toda uma linguagem, uma estética nova e tinha aquele negócio do sadismo, do top top, da introdução do palavrão, era uma revolução. Cada um tinha um estilo, mas o Henfil era o mais revolucionário, mais impressionante, aquele traço fino parecia coisa do Picasso.

3. O que chamou mais atenção o humor escrito, as gags visuais ou o traço?

A terceira pergunta é mais ou menos isso, as tags visuais, o conceito, o conceito do exagero, do cara “se foder”, do “cara se estrepar”, não tinha dó, era o escárnio, um afrontamento direto à ditadura e aos militares, as coisas absurdas, depois a introdução à Leila Diniz, do nu, do palavrão, a denúncia do tropicalismo, do exílio, dos novos baianos, começou a falar da droga também, da liberdade de usar a maconha. Era tanta coisa diferente, eu na minha cultura de um cara suburbano que vinha da periferia da Zona Leste, foi um impacto impressionante.

4. Seu trabalho teve influência direta? Se teve, em que sentido?

Se o trabalho teve uma influência direta? Sem dúvida. Eu comecei minha militância em 1963, estudava na Mooca, no Firmino de Proença, teve os jogos pan-americanos aqui em São Paulo, fui expulso da escola que estudava e passei a trabalhar no movimento secundarista e entrei na faculdade só em 69. Eu era da esquerda bem hard, bem periferia, adepto do Lamarca, do Marighela. Lógico que vim de Geraldo Vandré a Caetano Veloso, passando pelo Chico, então, esse trabalho era muito moderno. Agora na minha escola, na Geologia da USP, onde o pessoal adorava arte gráfica, o Pasquim era bebido, cara, e disputada aos tapas para comprar, mas distribuíam de graça. Então o Henfil começou a criar uma estética dos jornais do movimento estudantil, da igreja de esquerda. Quando você fala dos sindicatos, eu acho que tinha mais movimento de bairro, mais de comunidade, porque o Henfil era um filho da igreja católica, o irmão dele que veio de movimento de juventude, o Betinho, que o pessoal conhece mais da campanha contra a fome, mas eles eram da AP, da Ação Popular, oriundos de movimento da juventude universitária católica. A questão da hemofilia era uma história incrível. Lógico que foi imortalizado pela canção da Elis Regina, mas na época da anistia, 10 anos depois, com a volta do irmão do Henfil. O Henfil ajudou muito na formação do PT. Nessa época, aparecia muito gente de desenho em quadrinho, da Mafalda, que veio da Argentina, muita coisa do exterior, lembro que vinha coisa do Claudius, enfim, o quadrinho todo mundo lia, as tiras da Folha, tinha vários cartunistas, por exemplo, o pai da Laert, o Coutinho, era meu professor na geologia, a gente bebia das tiras, principalmente das tiras da Folha, mas o Pasquim era a verdadeira revolução cultural, gráfica.

5. Qual foi a impacto dos Quadrinhos e Charges do Henfil na Imprensa Sindical? E na esquerda?

Não sei bem da imprensa sindical, eu acompanhava mais o jornal Movimento, Opinião, o Em Tempo, foi uma revolução em toda a imprensa da esquerda influenciada pelo Henfil. Todo mundo queria saber qual era a última entrevista, a última fala, tinha uma época que ele falava das pessoas que morriam em vida, ele falava dos túmulos que os caras que falavam bobagem; puseram até a Clara Nunes uma vez, a Elis Regina também foi marcada como morta em vida, pessoas de esquerda que desbundavam. Tanto que a Elis, quando grava a música “O bêbado e o equilibrista”, para se redimir de uma besteira que ela fez ao cantar para os militares. No meu meio, era como se gente estivesse falando de Picasso. Nós achamos que o Henfil tinha a mesma importância que o Picasso tinha quando ele desenhou a Guernica, tal a importância que ele teve para a arte e estética brasileiras. Eu colecionava todos os jornais do Pasquim e tudo que o Henfil falava era uma coisa ultrapreservada, como ele enfrentava os militares, a ditadura, era muito diferenciado, moderno e corajoso. Era como se fosse a geração do cinema novo, por exemplo, o Tropicalismo, o Caetano, o Gil, Torquato, Gal, tinham uma restrição, como se fossem desbundados, já era uma geração que vinha adiante, do Geraldo Vandré, daquela coisa mais tradicional da música popular brasileira, os festivais de música, o Henfil era uma revolução conceitual, transformadora, definitiva, socialista, falava da questão da luta armada que era uma coisa ultraproibida com a maior naturalidade, do Sérgio Ricardo, do Glauber.

6. O que achou da iniciativa da Editora Noir em reunir estas entrevistas em um livro? Que efeito acha que este livro terá em você e nos demais leitores?

Achei importantíssima essa atitude da editora Noir em colecionar as entrevistas, principalmente para as novas gerações que conhecem muito pouco da obra e da importância do Henfil. Eu beberia essas edições todas e recomendaria até para os meus netos.

7. Henfil era um profissional multimídia, atuando na TV e no Cinema. O que achou das produções do cartunista em TV Home e Tanga, deu no New York Times?

Ele era REALMENTE um profissional multimídia, conseguiu entrar na televisão apesar de toda a censura, deu até no New York Times que era a coisa mais impressionante. Depois também as coisas do cinema, da retrospectiva do Henfil, aí começou a mudar muito, a atualizar, eu fui perdendo o contato, o meu contato foi mais até 69, 73, até a minha prisão. Depois não acompanhei mais, mudei de foco e o Pasquim também. Embora Henfil tenha entrado até nos meios de comunicação, na grande mídia, perdi esse contato.

8. Pra você, qual é o tamanho da falta que Henfil faz?

O Henfil é um personagem da humanidade e sua falta é terrível. Até as pessoas costumam dizer que não saberiam dizer o que foi a segunda guerra mundial se não fosse o Picasso e eu não teria problema nenhum em dizer que a gente não saberia o que foi a ditadura militar no Brasil se não fosse o Henfil, tão importante quanto Marighela, Lamarca e qualquer outro revolucionário, foi um revolucionário na arte da estética como o Glauber, Leila Diniz, Grande Otelo, Dina Sfat, Rogério Sganzerla, um gênio, era tudo isso e um pouco mais.

9. As novas gerações conhecem pouco do trabalho do Henfil. Apesar de uma exposição de originais no Centro Cultural Banco do Brasil (2005) no Rio e em SP ter tido público recorde na época, o trabalho dele ainda é pouco compartilhado nas redes. O que fazer pra melhorar isso? O livro organizado pelo Gonçalo Jr pode ajudar?

O livro pode ajudar, mas tem que haver uma reinserção. Veja a Mafalda, ela é eterna, do jeito que ela é colocada ela é atemporal, deveria ter um esforço para recolocar o Henfil não só no passado, mas também no presente. Ninguém vive só do passado, imagina o Henfil enfrentando o bolsonarismo, que coisa espetacular! Essa transposição temporal que é necessário fazer. Porque aqui no Brasil o que acontece é o seguinte: o que na ditadura os partidos atuais não reivindicam, nem a punição aos torturadores, nada que diz respeito à ditadura, por isso o bolsonarismo está aí. Seria necessário redesenhar e pegar o traço do Henfil para enfrentar as situações do presente para dar essa atemporalidade.

10. Como Henfil estaria reagindo à sanha totalitária e anti-democrática que abocanhou os três poderes?

Como ele estaria reagindo à sanha fascista? Ele ESTÁ reagindo, enquanto houver uma licença poética, uma atualização, o Henfil pode continuar através dos seus filhos, dos seus seguidores, a ter essa continuidade. Ele vive, esses caras que estão aí agora são uma cópia carbono suja do que era a ditadura, é só fazer as atualizações e as mudanças dos nomes.

11. Henfil foi um dos fundadores do PT, que se propunha a transformar radicalmente a sociedade. Esta décima terceira pergunta é o espaço pra suas considerações, não finais, mas futuristas. É possível ainda transformar o país de forma radical? O humor entra nisso?

Henfil foi um fundador do PT, ajudou muito o Lula, fez as primeiras camisetas, as primeiras artes junto com o Carlito Maia. Tem de transformar esse país de uma forma radical e o humor é fundamental, não tem nada que se faça sem humor, sem ironia, nós não enfrentamos o presente porque esquecemos o passado, esquecemos o Henfil, por isso estamos nessa merda que estamos hoje, esses caras que estão governando o Brasil são os piores descendentes da ditadura, nós partimos para uma social democracia sem enfrentar a ditadura, sem passar o passado a limpo, e eles voltaram. Você nunca vai ouvir falar nada do Torquato Neto, Rogério Sganzerla, Rogério Duprat, Betânia, Gal, esses trabalhos revolucionários que foram feitos à essência da ditadura, pois o Brasil atual não se interessa pela memória da resistência e vai levar muito tempo para eles abandonarem o poder. Por isso o Henfil é tão pouco conhecido. Do jeito que o PT se tornou conservador não sei dizer se o Henfil teria espaço na imprensa do PT. Uma coisa é o Lula e sua geração de revolucionários, outra coisa é o PT que é uma coisa muito conservadora, muito burocrática, isso você vê também na imprensa sindical. São poucos os cartunistas de ponta que tenham uma produção incrível. Essa arte, essa cultura, não entra nas estruturas partidárias e nem sindicais. Não têm mais a leveza e a mobilidade que o PT tinha em 1979, quando era um partido revolucionário. A arte está sempre à frente da revolução. Tem gente que fala que a arte não faz uma revolução. Isso é o maior equívoco. A arte é o canto, o prenúncio da revolução, você jamais saberia como foram os campos de concentração, a exploração no campo, se não fossem os artistas, Picasso, Portinari, você não saberia nada da humanidade, dos massacres, da escravidão, se não fossem as obras que expressassem esses momentos da história. Nunca ninguém fez uma fotografia de Zumbi dos Palmares, você não sabe como ele era, o jeito dele, isso vale para todos os momentos, você não saberia como Cristo teria sido crucificado se não fossem as obras de arte que traduziram esses grandes momentos da história, você jamais saberia o que foi um quilombo, o massacre dos indígenas ou o que foi Serra Pelada sem as fotos de Sebastião Salgado. Por isso Henfil foi um dos maiores revolucionários da ditadura brasileira. Viva Henfil, viva os cartunistas, viva o Pasquim, viva a toda a imprensa de esquerda alternativa que hoje equivale aos blogueiros. E viva Bira Dantas que me ensinou tudo de quadrinhos, de revolução e de resistência. Muito obrigado

CONTATO COM ADRIANO DIOGO

Adriano é geólogo formado pela USP e político brasileiro, militante pela democracia e pelos direitos humanos. Começou sua militância na década de sessenta no movimento secundarista. Foi perseguido, preso em 1973 e torturado no DOI-Codi de São Paulo. Teve quatro mandatos de vereador (de 1989 a 2003) ocupando-se das áreas do meio ambiente, da saúde pública, educação, moradia popular e das regiões periféricas. Em 2004 foi secretário de Verde e Meio Ambiente na prefeitura de Marta Suplicy. Foi eleito deputado estadual em três mandatos (2002, 2006 e 2010). Foi membro da Comissão de Direitos Humanos da ALESP, na qual presidiu a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva (que investigou e divulgou os crimes cometidos pela ditadura militar em nosso estado), o SOS Racismo e a CPI dos Trotes. Fez várias campanhas eleitorais usando Gibis em Quadrinhos como peça principal de propaganda.

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AQC entrevista: Junião sobre Henfil

Esta série de entrevistas é uma iniciativa da AQC em apoio ao livro “Sick da Vida”, coletânea de entrevistas do cartunista Henfil organizadas pelo quadrinhista, jornalista, escritor e biógrafo Gonçalo Silva Jr. O livro foi lançado na plataforma Catarse pela Editora Noir. Por isso, pedimos que você apoie, compartilhe e comente. https://www.catarse.me/henfil

1. Como você conheceu o trabalho do Henfil?

O trabalho do Henfil eu conheci há muito tempo atrás, não existiu um marco. Minha família sempre foi muito esclarecida, desde a época da minha bisavó, minha mãe frequentava Universidade, trabalhava na Unicamp… então leitura de jornal, livro e essas conversas sobre ditadura militar, repressão, sempre foram muito frequentes dentro de casa. Eu sempre gostei muito de cartum e charge, né? E como disse no comço, sempre teve jornal em casa. E uma vez, não sei se por um comentário de alguém, mas chegou um trabalho do Henfil na minha mão. Não lembro se era O Pasquim, só lembro que vi e gostei muito do traço dele. Eu já gostava muito de outros cartunistas coo Angeli, Glauco, Laerte. Naquela época a gente ia muito em banca de jornal, não tinha dinheiro pra comprar revistas, mas ficava folheando as coisas. Então conheci o trabalho do Henfil meio nesta toada assim: olhando revistas em banca de jornal, o traço dele já me chamou muito a atenção na época. E lá com meus 14 ou 15 anos comecei a defender uma graninha e gastava nos sebos de livros e discos e aí, encontrei o Fradim e o cara que vivia com medo, O Ubaldo o Paranóico. Com 16, 17 anos comprei três livrinhos do Henfil. Achava o humor dle bem ácido, fazia rir, mas fazia uma crítica social muito pertinente. Foi nesta minha fase entre adolescente e adulto que folheando revistas nas bancas e conversando em casa.

2. Qual foi o impacto inicial?

Foi este que descrevi acima. O traço dele me chamou muita atenção. Dos traços que eu via na época era o que tinha mais personalidade, masi expressão. Sempre gostei muito de ver um traço que já fosse a assinatura do artista. E também o tipo de humor, ele criava personagens pra falar da história do Brasil e através deles contava histórias. O que mai me impactou foi a qestão do traço forte, da crítica social pertinente e o modo que ele usava personagens pra criar como se fosse uma novela. Eu sempre gostei muito de artistas, cartunistas que contam histórias. Iso me marcou muito.

3. O que chamou mais atenção o humor escrito, as gags visuais ou o traço?

Complementando o que falei antes, eu não separo essas coisas, traço, humor, texto. Todas têm suas funções, não são independentes, caminham juntas e dão o ritmo da história que você está contando. Eu costumo brincar que tenho uma herança da época do Henfil, que é esse modo de contar a história, com ritmo. Todos elementos citados: humor escrito, gag visual e traço dão ritmo na história. Henfil não é só traço, só gag, é ritmo. Eu acho sensacional esse ritmo dele tranmitir o que quer.

4. Seu trabalho teve influência direta? Se teve, em que sentido?

Obviamente meu trabalho teve influência. A gente vai crescendo e vai vendo o trabalho de outros artistas, de cada um a gente vai trazendo alguma coisa pro seu trabalho. E essas influências mudam. No meu início de carreira tive muita influência do Henfil por conta do que eu disse antes, do ritmo de contar histórias, do ritmo em que você trabalha o tema, de contar tudo de uma maneira que impacte o leitor. Isso é uma coisa que trago muito comigo de Henfil, Angeli, Glauco, Laerte, até de outros como Emouri Douglas, artista gráfico dos Panteras Negras, que tem um cartum e ilustração mais posicionados. O Henfil com certeza é uma das minhas influências nesta questão de como trabalhar o ritmo do cartum, das histórias e a intensidade do traço.

5. Qual foi a impacto dos Quadrinhos e Charges do Henfil na Imprensa Sindical?

Até então a imprensa sindical também foi uma referência quando eu ‘tava começando a produzir as minhas charges, buscando até informação política, porque eram textos, imagens e cartuns que você não via na imprensa tradicional. Na imprensa sindical a gente tinha oportunidade de enxergar e entender outras perspectivas que não era uma perspectiva branca, pró mercado, pró ‘status quo’ que a imprensa tradicional sempre teve, né? A imprensa sindical trazia esta outra perpectiva mais proletária, que falava mais ds divisões de classe. Na minha adolescência, minha formação política foi dentro de casa, mas foi na rua também. E esse era assunto recorrente, não só a imprensa sindical, mas jornais e revistas negras, que traziam tudo da imprensa sindical somada à questão racial. Acho que é uma falha que a esquerda de hoje ainda tem, que é muito branca. Não tem como discutir classe no Brasil se não discutir raça. São coisas que estruturam o capitalismo. Não tem como discutir um sem o outro e a nossa esquerda branca evitava essa discussão com argumento furado de que isso dividia o movimento. Minha formação então teve muita influência da imprensa sindical como referência, com os trabalhos de Henfil, Laerte, Bira, mas questão racial eu tinha de ver por outros modos.

6. Acompanhava as entrevistas do Henfil na Imprensa?

Eu lembro muito pouco disso. Lembro do rosto dele, dele falando, mas não lembro de nenhuma entrevista que tenha marcado forte pra mim. Acho que mais por falta de acesso na época, porque ainda não tinha intenet e a gente não tinha dinheiro pra comprar revista. Não lembro de O Cruzeiro, mas folheava muita revista nas bancas e o que mais vi mesmo foram coletâneas com Quadrinhos do Henfil, do Fradim e de outros personagens. Eu não o acompanhava na recorrência semanal ou mensal das publicações, mas procurava seus livros e revistas em sebos, onde eu tinha mais acesso.

7. O que achou da iniciativa da Editora Noir em reunir estas entrevistas em um livro? Que efeito acha que este livro terá em você e nos demais leitores?

Acho sensacional essa ideia da editora porque, como eu era muito novo na época, é uma chance de ter acesso a isso tudo. Tudo bem que hoje em dia a gente tem internet, tem vários canais, mas livro é livro, né, velho? E poder ler, poder entender melhor o contexto daquela época é muito importante. E o Henfil é um personagem, dentre vários personagens da história do Brasil, muito pouco trabalhado. Eu, pelo menos, vejo pouca gente falando sobre quem ele era. E é um cara que merece ter seu trabalho e sua vida mais discutidos.

8. Henfil era um profissional multimídia, atuando na TV e no Cinema. O que achou das produções do cartunista em TV Home e Tanga, deu no New York Times?

Eu sou meio suspeito pra falar. Eu atuo como cartunista, sou diretor de um jornal, tenho trabalho com música, um pé nas Artes Plásticas, então é natural que o cartunista procure novas formas e novas plataformas pra contar suas histórias, né? Eu acho também que o cartunista é um contador de histórias, mas a plataforma que é usada pra isso pode ser variada. Então, pô, tem que trabalhar com TV, tem que trabalhar com cinema, porque cada plataforma tem sua técnica, suas ferramentas, seu modo de funcionar e de atingir as pessoas. Talvez a televisão atinja uma população que o cinema não atinge, que o jornal não atinge, que o livro não atinge. E isso só tem a acrescentar, né? Quanto mais linguagens, quanto mais formatos, mais plataformas a gente consegue ter acesso, trabalhar e contar nossas histórias, mais polido vai ficando o nosso modo de dizer o que queremos dizer e assim, ter feedbacks diferentes de públicos diferentes, né? Acho isso sensacional. É uma das coisas que o Henfil fazia, a Laerte fazia, Miguel Paiva fazia, tem que misturar as coisas. Quanto mais a gente diversifica o nosso modo de atuar, diversifica o nosso modo de olhar, passamos ater uma noção melhor de qual é essa realidade que habitamos… de quantas populações atingimos e dialogamos. Acho sensacional isso.

9. As novas gerações conhecem pouco do trabalho do Henfil. Apesar de uma exposição de originais no Centro Cultural Banco do Brasil (2005) no Rio e em SP ter tido público recorde na época, o trabalho dele ainda é pouco compartilhado nas redes. O que fazer pra melhorar isso? O livro organizado pelo Gonçalo Jr pode ajudar?

Esse é um problema não só em relação ao artista Henfil, é um problema que a gente tem aqui no Brasil. A gente tem essa desiguldade social que beneficia muito o que essa elite branca quer falar e quer mostrar. Pra tudo isso existe dinheiro, poder, espaço. Enquanto a gente tiver essas seis famílias que dominam a imprensa brasileira, uma elite branca, vinda da burguesia cafeeira que ainda está aí! Quem consegue virar cultura de massa hoje? Só quem essa elite quer. Assim como o Henfil, é muito difíci a gente ver artistas negras e negros que se destacaram dese a época do Brasil-colônia. Por que não temos essas pessoas nos livros de história? Porque é esse mesmo pensamento racista, misógino, homofóbico que impera desde a colonização do Brasil. É difícil você ter personalidades com destaque, que fujam dessa construção de imaginário dessa elite branca.O Henfil entra nesse rol porque era um artista que provocava essa elite e trazia uma reflexão em relação a essa elite. Não tem espaço pra pessoas que questionem o status quo. Assim, não tem espaço pra Henfil, pra Carolina de Jesus, Arthur Timóteo, pintor do começo do século, fazia parte das Belas-Artes, sabe-se muito pouco de Luiz Gama, de André Rebouças, porque foram pessoas que enfrentaram o sistema. É difícil colocá-los no imaginário popular hoje.

10. O Brasil hoje está ‘sick da vida’ com tantos ataques à democracia, à inclusão social, racial e de gênero, à distribuição de renda. Como seria ter Henfil conosco nos dias de hoje?

A gente precisa ir um pouco mais além, nossos vários núcleos de esquerda tem de entender o que queremos dizer com democracia, porque parece que democracia só foi ausente na época da ditadura militar e agora depois que o Bolsonaro tomou o poder.Mas se for perguntar pra galera da periferia, pra população preta, pobre e periférica, eles vão falar pra você qu e a democracia nunca existiu aqui no Brasil, sacou? Porque a violência policial, violência de estado, violência racial, vioência de gênero sempre estiveram aí, brother! Na ditadura, no governo bolsonaro, foi mais intensa, mas no Brasil sempre foi isso. Eu não gosto desta tese de que a democracia tá ameaçada agora. Ela sempre teve. A gente nunca teve democracia. O Brasil foi criado na base do derramamento de sangue, da violência do estupro. O Bolsonaro e a ditadura militar são refexos disso aí! O Brasil foi criado pra manter países ricos recebendo de bandeja o que a gente tem de melhor aqui. A gente vive num Capitalismo dependente, periférico. Ou seja, democracia aqui sempre passou longe. Mas claro, temos instrumentos pra lutar contra isso, trazer democracia de verdade, temos uma Constituição interessante, mas não gosto de falar que a democracia tá ameaçda não… Não é de agora. Taí a desigualdade social pra falar, as violências escancaradas. A parte boa é que os movimentos sociais estão com muito mais força, até pra esfregar isso na cara das esquerdas que nunca quiseram entender, sempre acharam que era um problema da classe, mas não. Vai ter que discutir raça, gênero e várias outras questões pra discutir democracia de verdade, que aqui nunca existiu.

11. Como Henfil estaria reagindo à sanha fascista, totalitária e anti-democrática que abocanhou os três poderes?

Henfil estaria com a mão pesada dele, criticando o conservadorimso, o fascismo, essa elite fascistas, mas também os dirigentes das esquerdas, não as bases, que depois do governo Lula deram uma sossegada no rolê e pararam de se comunicar com as bases. Não é voltar pras bases, é dialogar com as bases. São coisas muito diferentes. Esse diálogo tinha cessado, mas tá voltando porque os movimentos sociais estão pressionando os dirigentes.

12. Henfil foi um dos fundadores do PT, que se propunha a transformar radicalmente a sociedade. Esta décima terceira pergunta é o espaço pra suas considerações, não finais, mas futuristas. É possível ainda transformar o país de forma radical?

Eu acho que é possível transformar o país de forma radical mas desde que, como dizia Garrincha ‘se combine com os russos’, né? O PT sempre foi sozinho. A elite petista sempre foi fechada nela mesma, e vai ter que negociar com o movimentos sociais isso aí! Tem varias vozes aí que sempre quiseram espaço e o próprio PT nunca deu. Só que agora esses movimentos estão batendo na porta de maneira diferente. Moviemto de negro, movimento indígena, movimento de moradia, eles descobriram: “Ou é com a gente ou não vai ter!” Acho que é possível sim, um movimento mais radical, mais ligado às questões sociais de fato, porque… com vida, você não negocia VIDA, né brother? Então quando a gente coloca na cabeça que não vai negociar vida, só isso daí já é radical, velho. Radical em termo de raiz, né? Em termos de igualdade e quidade de direitos. Os movimentos não estão pra brincadeira não! Se o PT quiser fazer algo nesse sentido, ele vai ter que estar COM os movimentos sociais e dialogar, abrir espaço, aí eu acho que vai ser possível sim. Até porque se o PT não fizer isso, vai cair de novo e vai cair feio, porque os movimentos sociais vão cobrar isso. É isso, espero que tenha respondido. Por whatsapp tudo fica mais frio, é sempre melhor ter uma conversa dessa tomando uma cerveja e trocando, frente a frente, até pra gente aprender junt. De consideração final fica aí meu desejo eterno de mudança, mas com muito otimismo. Pra mim, o bolsonaro já caiu, o problema é o bolsonarismo. Hoje em dia eu brigo mais com o bolsonarismo, essa galera que saiu das catacumbas, que me precupa. Muito jovem aí não viveu o governo Lula. Nosso trabalho é grande e árduo pra mirar nesta questão racista, classista que vem desde o começo do país, o bolsonaro colocou isso pra fora, colocoou essa bola. Já que colocou a bola, vamos chutar ela, pai! Pra gente começar a pensar em democracia de fato, e não ficar no banho-,aria de reforminha aqui, reforminha ali. Temos que colocar o Estado pra trabalhar pra nós!

CONTATO COM JUNIÃO

Nascido em Campinas (SP), é formado em Artes Visuais pela Unesp/Bauru e faz jornalismo ilustrado desde 1994. Atuou como designer e cartunista em veículos como Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, Veja e Courrier International (França). Ganhou o Salão Internacional de Desenho para Imprensa de Porto Alegre, em 2011, o prêmio Vladimir Herzog de 2005 e menção honrosa em 2006 (categoria artes), além do prêmio de cartuns sobre Aids do Ministério da Saúde, em 2004. Em 2018, seu livro infantil ‘Meu Pai Vai Me Buscar na Escola’ foi para escolas e bibliotecas públicas do país pelo programa PNBE2018. Tem textos publicados em livros coletivos no Brasil e Alemanha. Mora em São Paulo, e atualmente é Diretor de Arte e Coordenador de Projetos na Ponte Jornalismo.

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AQC entrevista: Carol Cospe Fogo sobre Henfil

Esta série de entrevistas é uma iniciativa da AQC em apoio ao livro “Sick da Vida”, coletânea de entrevistas do cartunista Henfil organizadas pelo quadrinhista, jornalista, escritor e biógrafo Gonçalo Silva Jr. O livro foi lançado na plataforma Catarse pela Editora Noir. Por isso, pedimos que você apoie, compartilhe e comente. https://www.catarse.me/henfil

1. Como você conheceu o trabalho do Henfil?

Minha primeira lembrança do trabalho do Henfil vem de uma fachada de escola em Belo Horizonte que tinha seu nome. Eu ainda criança olhei aquele desenho e imediatamente me apaixonei. Era forte e intrigante pra mim.

2. Qual foi o impacto inicial?

Era incrível ver o quão solto o traço parecia. Quase despretensioso. Forte!

3. O que chamou mais atenção o humor escrito, as gags visuais ou o traço?

O traço e o “papo reto”, como dizem. Certeiro e objetivo.

4. Seu trabalho teve influência direta? Se teve, em que sentido?

Teve e tem influência. Quando vejo colegas falando de sua personalidade, me sinto ainda mais atraída por seu trabalho!

5. Qual foi a impacto dos Quadrinhos e Charges do Henfil na Imprensa Sindical?

O trabalho do Henfil é militante. É defensor do trabalhador.

6. Acompanhava as entrevistas do Henfil na Imprensa?

Penso que a fala e o traço do Henfil funcionavam como diretrizes. A mensagem sempre clara.

7. O que achou da iniciativa da Editora Noir em reunir estas entrevistas em um livro? Que efeito acha que este livro terá em você e nos demais leitores?

Será incrível. Teremos novamente a chance de saber a perspectiva do Henfil nesses temas que andam nos assombrando atualmente.

8. Henfil era um profissional multimídia, atuando na TV e no Cinema. O que achou das produções do cartunista em TV Home e Tanga, deu no New York Times?

Não conheci ainda essas duas produções, infelizmente. Mas com a gana e desenvoltura em se adaptar e circular em outros universos que Henfil demonstrava, teria vasto caminho em tempos atuais, repletos de diversidade de mídia.

9. Pra você, qual é o tamanho da falta que Henfil faz?

Lamento não termos agora uma pessoa tão criativa, ousada e ácida combatendo tantas mazelas políticas e sociais.

10. As novas gerações conhecem pouco do trabalho do Henfil. Apesar de uma exposição de originais no Centro Cultural Banco do Brasil (2005) no Rio e em SP ter tido público recorde na época, o trabalho dele ainda é pouco compartilhado nas redes. O que fazer pra melhorar isso? O livro organizado pelo Gonçalo Jr pode ajudar?

O legado de Henfil é sentido mesmo por aqueles que não conheceram muito seu trabalho. A porta que Henfil ajudou a desenhar é caminho aberto para vários hoje. Inclusive eu. Esse livro é uma grande iniciativa, e certamente nos devolverá o pensamento crítico de Henfil.

11. O Brasil hoje está ‘sick da vida’ com tantos ataques à democracia, à inclusão social, racial e de gênero, à distribuição de renda. Como seria ter Henfil conosco nos dias de hoje?

Acredito que Henfil estaria liderando movimentos de resistência. Seria um grande agente diluidor dessa cortina constante de fumaça que atrapalha e divide nossa sociedade.

12. Como Henfil estaria reagindo à sanha fascista, totalitária e anti-democrática que abocanhou os três poderes?

Com acidez. Provavelmente teriam tentado enquadrá-lo na Lei de Segurança Nacional.

13. Henfil foi um dos fundadores do PT, que se propunha a transformar radicalmente a sociedade. Esta décima terceira pergunta é o espaço pra suas considerações, não finais, mas futuristas. É possível ainda transformar o país de forma radical?

O PT que Henfil ajudou a criar acabou se moldando à política dos demais partidos. Sinto que se ainda estivesse por aqui, Henfil tentaria manter o perfil do partido mais ligado aos seus ideais. O radicalismo não é bom em nenhum aspecto. Para mim, o cidadão precisa entender que não basta a tal empatia. Pois normalizou-se que ser empático é simplesmente se colocar em posição superior e ver o outro com compaixão passiva, sem atitude. O que precisamos é RECONHECIMENTO. Precisamos nos reconhecer como iguais.

CONTATO COM CAROL ANDRADE

Carol Andrade é mineira de Belo Horizonte e tem 38 anos. É diretora de arte e ilustradora. Usa o nome ‘Carol Cospe Fogo’, apelido que ganhou pela maneira ácida que retrata o cotidiano. O desenvolvimento do seu trabalho e construção do pensamento vem de um perfil de muita observação e curiosidade. Há 6 anos vive no Rio de Janeiro e se dedica às charges com temas socais e políticas. É a primeira mulher a receber o prêmio Angelo Agostini como melhor cartunista/caricaturista do Brasil em 2019.

Instagram https://www.instagram.com/carolcospefogo/

Twitter: @carolcospefogo

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AQC entrevista: Suze Elias sobre Henfil

Esta série de entrevistas é uma iniciativa da AQC em apoio ao livro “Sick da Vida”, coletânea de entrevistas do cartunista Henfil organizadas pelo quadrinhista, jornalista, escritor e biógrafo Gonçalo Silva Jr. O livro foi lançado na plataforma Catarse pela Editora Noir. Por isso, pedimos que você apoie, compartilhe e comente. https://www.catarse.me/henfil

1. Como você conheceu o trabalho do Henfil?

Fui aluna, no final da década de 70, de uma escola pública em que o vice-diretor, um professor de Português, era um militar. Ninguém se dirigia a ele como Professor Fulano, era Coronel Fulano. Alguns de nossos professores lecionavam também em uma escola militar. Política não entrava em sala de aula, mesmo com um cenário nacional mais mobilizado pelo retorno dos exilados e com a palavra anistia sendo pronunciada cada vez mais com maior frequência. Pedia-se: “Anistia ampla, geral e irrestrita”. Foi nesse contexto, nas manifestações que começaram a ser mais frequentes, que tínhamos acesso às publicações sempre em papel jornal, e pequenos impressos como cartas abertas, que conheci e comecei a ler o “Pasquim”. Foi dado um exemplar, li e aí conheci o Henfil. Quando possível, comprava-se o Pasquim, bem como publicações independentes em algumas bancas de revistas. E tinha muita publicação bacana em algumas bancas de revistas! As publicações da Editora Codecri, eram encontrados nas bancas. E nesse final da década de 70 e início dos 80, muitas bancas de revistas sofreram atentados: vandalismo, incêndios, bombas… Não era fácil ler! Quem queria entender o país, lia Henfil

2. Qual foi o impacto inicial?

O traço e o humor do Henfil se confundiam com a luta pela democratização do país, com a crítica à condução da economia que empurrava a população mais pobre para uma situação de miséria absurda. O humor corrosivo nas tiras e charges não nos deixavam indiferentes.

3. O que chamou mais atenção: o humor escrito, as gags visuais ou o traço?

O traço do Henfil é incrível! É econômico, mas tudo parece estar vivo, em movimento.

4. Seu trabalho teve influência direta em você?

A Arte do Henfil me informou e formou. Ele abraçou a luta pela anistia, as diretas, as greves do ABC… Foi exemplo de uma postura de não entrega, de olhar sempre criticamente para contribuir para a mudança. Entendo que a partir do meu lugar nesse mundo, tanto na minha experiência como professora, quanto agora como bibliotecária, minha consciência está comprometida com um ações que contribuam para um olhar mais crítico para o mundo.

5. Qual foi a impacto dos Quadrinhos e Charges do Henfil na Imprensa Sindical?

Henfil é um marco, em termos de fontes visuais na história do sindicalismo brasileiro. O sindicalismo desse momento tem forte impacto das charges. Não há como contar a história dos sindicatos, da luta pela democratização sem falar do poder comunicativo da arte do Henfil. Eu conheci e conheço colecionadores das publicações do Henfil. Os Fradinhos, a Graúna, o Bode Orelana, o desenho do Teotônio Vilela, o Ubaldo. A arte do Henfil não é só fonte de informação visual, ela faz parte de momentos de luta para muita gente, tem muita memória afetiva. Eu li todos os Fradins! Um vizinho e compadre: Antônio Augusto Schmidt me emprestou a coleção completa.

6. Acompanhava as entrevistas do Henfil na Imprensa?

Eu não me lembro das entrevistas, mas Henfil sempre muito crítico, dava umas esculhambadas bem bacanas! Eu me lembro da expressão “patrulha odara” como resposta à “patrulha ideológica” do Cacá Diegues. Foi um embate que marcou a época.

7. O que achou da iniciativa da Editora Noir em reunir estas entrevistas em um livro? Que efeito acha que este livro terá em você e nos demais leitores?

Democratizar e manter a memória no Brasil é um grande desafio! É de extrema importância que a Editora Noir consiga reunir o pensamento de uma personalidade que faz parte da história da imprensa no Brasil, em suas múltiplas possibilidades já que Henfil trabalhou em várias publicações periódicas de grande repercussão (jornal, revista, imprensa sindical), foi até para a TV! Henfil é um super personagem da história recente do país, alguém que pôs sua arte a serviço da democratização do país e foi para além do registro das questões de uma sociedade extremamente desigual, sua arte fez a crítica provocando e contaminando positivamente os diálogos. Mas fez isso de maneira tão especial que se pode revisitar suas charges e tiras e ver que muitas são extremamente atuais (infelizmente a política atual voltou para o pior aspecto de nosso passado). A Editora Noir vai nos presentear com fonte histórica! Muitos não conhecem a importância e ou o trabalho do Henfil, é uma forma de fortalecer nossa memória de luta.

8. Henfil era um profissional multimídia, atuando na TV e no Cinema. O que achou das produções do cartunista em TV Homem e Tanga, deu no New York Times?

O lado multimídia do Henfil vou me lembrar muito pouco. Vou me lembrar das tiras, charges e muitos personagens, que eram muito mais próximos de meu universo daquele momento, e das publicações em formato livro. Henfil foi um gênio num país de pouca memória. Acho incrível como ele se apropriou dos principais meios de comunicação à disposição para interagir, criticar e buscar mudanças! Fez uso dos jornais impressos, revistas, tv, cinema, fotografia… Imagino que hoje, o Henfil combativo e polêmico vislumbraria outras formas de ser um “influencer” e teríamos um campo santo enorme, cheio de influencers, celebridades., músicos… Henfil faz falta! Na França há a “Semaine de la Presse et des mídias dans l’Ecole” que atravessa todos os anos escolares com a preocupação do informar-se para compreender o mundo. Acho que é um grande exemplo de projeto em que é possível trabalhar, memória, informação e formação. Projetos em que a memória é posta em relevo devem passar pelas escolas e bibliotecas. Há muito conteúdo bacana nas redes, mas ficam ocultos ou isolados. O instituto Henfil https://www.facebook.com/instituto.henfil tem que fazer um esforço para ser sempre referenciado e tagueado. A articulação com outras instituições será sempre necessária. O livro continua sendo uma forma/ferramenta basilar de fazer circular a informação, são fundamentais para a manutenção da memória.

9. Henfil foi um dos fundadores do PT, que se propunha a transformar radicalmente a sociedade. Esta décima terceira pergunta é o espaço pra suas considerações, não finais, mas futuristas. É possível ainda transformar o país de forma radical? O humor entra nisso?

O povo está reagindo apontando Lula como nosso presidente nas próximas eleições. Ainda que a retirada de direitos, piora das condições de vida, embacem uma visão de tempos melhores; a movimentação de mulheres, do povo preto, do LGBTQIA+ e outras vozes que estavam silenciadas tem mantido a esperança e impedido um maior retrocesso. Bom sempre lembrar que o movimento pela anistia começou com um grupo de mulheres. O humor gráfico tem elementos que provocam outras formas de ver o mundo, seja pela mordacidade, imaginação ou na forma como trabalha nosso imaginário. São essas múltiplas formas de ver que podem levar à uma mudança, que não sei se será radical. O humor gráfico é parte desse processo.

CONTATO COM SUZE ELIAS

eliassuz.se@gmail.com

É bibliotecária e chefe do setor da Biblioteca Pública Municipal “Professor Ernesto Manoel Zink”. Organizadora da Semana do Quadrinho Nacional de Campinas, organizou uma Gibiteca dentro da Biblioteca Central da cidade e tem promovido exposições, debates, palestras e oficinas sobre Quadrinhos e Charge direcionado a alunos de Campinas.

https://www.facebook.com/suze.elias

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AQC entrevista: Santiago sobre Henfil

Esta série de entrevistas é uma iniciativa da AQC em apoio ao livro “Sick da Vida”, coletânea de entrevistas do cartunista Henfil organizadas pelo quadrinhista, jornalista, escritor e biógrafo Gonçalo Silva Jr. O livro foi lançado na plataforma Catarse pela Editora Noir. Por isso, pedimos que você apoie, compartilhe e comente. https://www.catarse.me/henfil

1. Como você conheceu o trabalho do Henfil?

Conheci o trabalho do Henfil no Pasquim quando comprei o primeiro número em 1969.

2. Qual foi o impacto inicial?

Fiquei impressionado com a irreverência e a boa molecagem do texto; a agilidade e economia do desenho.

3. O que chamou mais atenção: o humor escrito, as gags visuais ou o traço?

O humor escrito.

4. Seu trabalho teve influência direta? Se teve, em que sentido?

Não tive grande influência, porque sempre fiz desenhos mais demorados, com esboço muito estudado e execução lenta.

5. Qual foi a impacto dos Quadrinhos e Charges do Henfil na Imprensa alternativa?

A militância e o engajamento do Henfil nas pautas de esquerda sempre nos impressionou e nos impulsionou nessa coisa de fazer do desenho de humor uma arma. Éramos unânimes em admirar esse comprometimento corajoso do artista.

6. O que achou da iniciativa da Editora Noir em reunir estas entrevistas em um livro? Que efeito acha que este livro terá em você e nos demais leitores?

Ótimo resgatar tudo sobre Henfil. Acho que terei muito prazer em rever literariamente o amigo Henfil.

7. Henfil era um profissional multimídia, atuando na TV e no Cinema. O que achou das produções do cartunista em TV Homem e Tanga, deu no New York Times?

Admirava muito sua atuação na TV, sempre tinha ideias surprendentes nos comentários e boas encenações, acho que ele se deu bem no meio eletrônico visual. Infelizmente nunca assisti por inteiro o filme dele.

8. Pra você, qual é o tamanho da falta que Henfil faz?

Imensa é a falta de um cara que tenha relevância na mídia e possa botar a boca no trombone em tempos de explícito fascismo.

9. As novas gerações conhecem pouco do trabalho do Henfil e ainda é pouco compartilhado nas redes. O que fazer pra melhorar isso? O livro organizado pelo Gonçalo Jr pode ajudar?

Claro que temos que amplificar e divulgar os desenhos -até hoje- atuais dele. Esse livro da Editora Noir é muito oportuno. Num período de neo-fascismo e mediocridade, gente com essa índole inconformista e revolucionária é imprescindível.

10. O Brasil hoje está ‘sick da vida’ com tantos ataques à democracia, à inclusão social, racial e de gênero, à distribuição de renda?

Parece, pelas pesquisas com Lula, que já começa a haver um início de reação, embora eu ache que a classe média e a classe média-baixa estejam impregnados de postura fascista.

11. Como Henfil estaria reagindo à sanha fascista, totalitária e anti-democrática que abocanhou os três poderes?

Lógico que Henfil hoje estaria super ativo, produzindo muitíssimo na internet.

12. Henfil foi um dos fundadores do PT, que se propunha a transformar radicalmente a sociedade. Esta décima terceira pergunta é o espaço pra suas considerações, não finais, mas futuristas. É possível ainda transformar o país de forma radical? O humor entra nisso?

Se um novo governo de esquerda (ou pelo menos social democrata) investir profundo na educação política do povão é possível a longo prazo criar uma sociedade mais igualitária. Claro que o Humor Gráfico é peça importante nisso.

CONTATO COM SANTIAGO

https://www.facebook.com/santiagocartunista Neltair Rebés Abreu conhecido como Santiago, é caricaturista e cartunista. Trabalhou como desenhista técnico na indústria de Porto Alegre. Ingressou na Faculdade de Arquitetura, onde ganhou o apelido de “Santiago”, que terminou adotando como pseudônimo nos jornais estudantis, para fugir da censura política vigente naqueles anos. Cursou também Belas Artes e Jornalismo na UFRGS. Publicou pela primeira vez no suplemento humorístico O Quadrão, do jornal Folha da Manhã. Começou a trabalhar profissionalmente na Folha da Tarde, onde fez por nove anos a charge editorial do jornal, até o seu fechamento. Colaborou ainda para o Correio do Povo, Coojornal, Pasquim e para O Estado de S. Paulo. É autor de seis livros. Premiações https://pt.wikipedia.org/wiki/Santiago_(cartunista)

https://www.instagram.com/cartunista_santiago/

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AQC entrevista: Ciça Pinto sobre Henfil

Esta série de entrevistas é uma iniciativa da AQC em apoio ao livro “Sick da Vida”, coletânea de entrevistas do cartunista Henfil organizadas pelo quadrinhista, jornalista, escritor e biógrafo Gonçalo Silva Jr. O livro foi lançado na plataforma Catarse pela Editora Noir. Por isso, pedimos que você apoie, compartilhe e comente. https://www.catarse.me/henfil

1. Como você conheceu o trabalho do Henfil?

Conheci primeiro o próprio Henfil, junto com a turma do Pasquim.

2. Qual foi o impacto inicial?

Sobre o trabalho dele? Encantamento, admiração, aquela sensação de: “Gente! É isso aí!”

3. Como o conheceu pessoalmente?

Conheci o Henfil já no Pasquim, onde publiquei algumas dicas, e uma ou duas pequenas matérias. Ziraldo me apresentou o irmão, o Zélio, com quem namorei e casei, e estamos assim casados há 57 anos numa parceria gostosa. Mudamos para SP em meados dos anos 60, quando procurei o Mino Carta no Estadão, com minhas tiras debaixo do braço. Ele gostou, mas não comprou: e me encaminhou para o Claudio Abramo, na Folha de São Paulo, que, sim, gostou e comprou minhas tiras do Pato, pra minha grande alegria…

4. O que chamou mais atenção o humor escrito, as gags visuais ou o traço?

As gags, o traço, o quanto tudo era certeiro, o humor malvado, a ternura escondidinha, o olhar crítico.

5. Qual foi a impacto dos Quadrinhos e Charges do Henfil na Imprensa Sindical? E na esquerda?

Na Imprensa Sindical, não sei, mas imagino que tenha sido total. Na esquerda assim em geral, não sei dizer, mas na esquerda no meio da qual eu vivia naquela época, Henfil era aquele gênio que indicava os caminhos fazendo rir, pensar e agir!

6. Acompanhava as entrevistas do Henfil na Imprensa?

Todas!

7. O que achou da iniciativa da Editora Noir em reunir estas entrevistas em um livro? Que efeito acha que este livro terá em você e nos demais leitores?

Acho importantissima essa iniciativa. Principalmente nesta época esquisita que estamos atravessando. Fora, é claro, o prazer de reler Henfil.

8. Pra você, qual é o tamanho da falta que Henfil faz?

Uma falta enorme, imensa. Como pessoa, artista, crítico, revolucionário, humorista, cartunista, escritor, filósofo, etcetcetc… E como amigo. Amigo querido.

9. As novas gerações conhecem pouco do trabalho do Henfil e ainda é pouco compartilhado nas redes. O que fazer pra melhorar isso? O livro organizado pelo Gonçalo Jr pode ajudar?

As novas gerações, ligadissimas nas redes, realmente conhecem pouco do trabalho dele. Fico pensando se um “Instituto Henfil” virtual além do que existe, não seria uma maneira de divulgar essa obra fundamental…

10. Como Henfil estaria reagindo à sanha fascista, totalitária e anti-democrática que abocanhou os três poderes?

Acho que ele estaria à toda, produzindo as mais geniais gozações e, acredito, mais personagens imortais no combate à invasão fascista.

11. Henfil foi um dos fundadores do PT, que se propunha a transformar radicalmente a sociedade. Esta décima terceira pergunta é o espaço pra suas considerações, não finais, mas futuristas. É possível ainda transformar o país de forma radical? O humor entra nisso?

Sem dúvida, o humor é totalmente transformador. Não há monstro imune ao ridículo… e não existem armas que acabem com uma boa piada, uma charge certeira, um Fradinho, uma Graúna…

(*) CONTATO COM CIÇA PINTO

https://www.facebook.com/cissapinto

Cecilia Whitaker Vicente de Azevedo nasceu em SP, morou no Rio dos 13 aos 17. Entrou para a AMES (politica estudantil para quem ainda estava no ginásio). Publicou alguns desenhos na revista O Cruzeiro e alguns contos na A Cigarra. Conheceu Ziraldo, Millôr e varios outros cartunistas através dessas revistas, e eventualmente publicou seus primeiros quadrinhos no suplemento “O Sol” do Jornal dos Esportes. Na Folha Ilustrada publicou por mais de 20 anos, uma aventura! Publicou também, mais tarde, no Jornal do Brasil e no Correio da Manhã no Rio de Janeiro. Algumas publicações em jornais sindicais e revistas de humor como a Crás e outras. Publicou também na Inglaterra e na Africa do Sul. Alem do Pato, as Formigas, etc, também criou outros personagens como Bel (para o suplemento feminino da Folha) e Bia Sabiá, que era sua personagem feminista querida. Suas tiras foram publicadas em dois livros pela Editora Pasquim (O Pato e O Pato no Formigueiro), um livro pela Circo (Pagando o Pato) e um pocket pela Editora LPM.

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AQC entrevista: Geuvar OIliveira sobre Henfil

Esta série de entrevistas é uma iniciativa da AQC em apoio ao livro “Sick da Vida”, coletânea de entrevistas do cartunista Henfil organizadas pelo quadrinhista, jornalista, escritor e biógrafo Gonçalo Silva Jr. O livro foi lançado na plataforma Catarse pela Editora Noir. Por isso, pedimos que você apoie, compartilhe e comente. https://www.catarse.me/henfil

1. Como você conheceu o trabalho do Henfil?

Conheci por meio dos jornais, em tiras!

2. Qual foi o impacto inicial?

Impacto profundo, ficava olhando aquele traço preto com pinceladas rápidas, a leveza das personagens me chamava muito a atenção.

3. O que chamou mais atenção o humor escrito, as gags visuais ou o traço?

O traço era uma simbiose do humor, incrível como as duas coisas estavam interligadas diretamente. Era uma dança do traço no papel branco. Impossível esquecer.

4. Seu trabalho teve influência direta? Se teve, em que sentido?

Não tive. Eu conheci o trabalho do Henfil já adulto e descolado no desenho. Minhas referências foram mais os desenhistas italianos, depois estadunidenses, o Henfil, era como musas inacessíveis para mim, um “poeta” no chão. Da mesma forma acompanhei o trabalho do Ziraldo e do Bira, conheci o do Bira um pouco antes com as HQs dos Trapalhões, ria demais. O traço do Henfil é único, quase uma assinatura.

5. Qual foi a impacto dos Quadrinhos e Charges do Henfil na Imprensa Sindical? E na esquerda?

Poder. Tinha um poder enorme aquela leitura de grafite em muro, algo instantâneo, o poder daquela informação… era impossível ficar alheio. Não vi na imprensa sindical, porque na época eu morava em cidade pequena e não tinha uma parada dessas. Acompanhava soltos em revistas, livros didáticos tinha bastante coisas dele. Depois que fui para a segunda maior cidade do Maranhão, Imperatriz, passei a frequentar sindicatos e via sempre panfletos com os desenhos dele e jornais que o sindicato fazia a impressão.

6. Acompanhava as entrevistas do Henfil na Imprensa?

Acompanhei poucas, não vi ao vivo. Como falei, morava em cidade pequena na época (anos 70 e 80), mas depois passei a assistir nos vídeos da internet, para saber mais sobre ele. Teve uma na qual ele conta que foi barrado nos Estados Unidos, por acharem seus desenhos muito agressivos. Ele é muito querido no Brasil.

7. O que achou da iniciativa da Editora Noir em reunir estas entrevistas em um livro? Que efeito acha que este livro terá em você e nos demais leitores?

Isso é bacana demais, um legado desses tem que encontrar plataformas para continuar vivo. Tem um efeito agradável saber que existe essa preocupação em manter vivo o trabalho desse grande mestre.

8. Henfil era um profissional multimídia, atuando na TV e no Cinema. O que achou das produções do cartunista em TV Homem e Tanga, deu no New York Times?

Sensacional! Se não estou enganado tinha umas histórias em fotonovela, preto e branco. Sim, TV Homem era completo, vi algumas coisas dele no audiovisual. Olha aí acho que isso eu me inspirei dele. Sempre fui muito caído pelo audiovisual, agora mesmo estou fazendo um filme da Liga do Cerrado, com um amigo. Cara isso fica na retina da gente e um belo dia vem à tona. Talvez eu tenha essa inspiração dele.

9. Pra você, qual é o tamanho da falta que Henfil faz?

Nossa, cara, do tamanho de uma viagem à lua, ida e volta. Já pensou um mestre como ele nesse tempo de Bozos, Moros e generais entreguistas? Ia ser uma ajuda primordial.

10. As novas gerações conhecem pouco do trabalho do Henfil e ainda é pouco compartilhado nas redes. O que fazer pra melhorar isso? O livro organizado pelo Gonçalo Jr pode ajudar?

Demais! Porém, uma exposição itinerante pelo país seria bem da hora. Um livro é super legal, mas imagina uma exposição chegando aqui em Palmas e em outras cidades menores e as escolas disponibilizando estudantes para visitar? Aquelas pessoas conversando no momento exato de suas impressões é único e depois uma discussão em sala. Pensa nisso!

11. O Brasil hoje está ‘sick da vida’ com tantos ataques à democracia, à inclusão social, racial e de gênero, à distribuição de renda?

A coisa já estava ruim há muito tempo, os fascistóides só jogaram no ventilador. Eu considero que todo o problema é por causa da má distribuição de renda.

12. Como Henfil estaria reagindo à sanha fascista, totalitária e anti-democrática que abocanhou os três poderes?

E sanha religiosa também. Acho que Henfil estaria com todo mundo nas cordas e socando o estômago deles, entrando com gancho, voadora e tudo mais.

13. Henfil foi um dos fundadores do PT, que se propunha a transformar radicalmente a sociedade. Esta décima terceira pergunta é o espaço pra suas considerações, não finais, mas futuristas. É possível ainda transformar o país de forma radical? O humor entra nisso?

Essa pergunta me fez lembrar uma coisa, como eu acompanho o PT há muito tempo, cansei de ver os cartazes do Henfil nos diretórios do partido, nas paredes, impressos, boa lembrança. Sim é possível, porém temos dirigentes sem muita vontade que fica ocupando o lugar indevidamente, mas é possível se o povo se politizar e amar o país, como ele deve ser amado. A classe trabalhadora não deve negociar o país com essas oligarquias, que estão empoleirada a muito tempo recebendo presentes para manter o país atrasado. Temos grandes problemas na política, porque o sistema financeiro tomou de conta do Congresso Nacional, impedindo que homens e mulheres realmente nacionalistas posso contribuir para o bem do país. Recentemente aconteceu uma coisa que me deixou muito preocupado, essa suposta intenção do Lula chamar o Alckmin para vice, corremos um sério risco de repetir um Sarney/Tancredo. Imagine o mal que seria se os votos da esquerda fossem transferidos para a direita governa, porque o titular sofreu um “acidente”? Estamos sofrendo com um grande atraso provocado pelo Temer, Bolsonaro, outra tragédia poderia ser fatal para o país. As gerações de nacionalistas poderiam está em xeque.

(*) CONTATO COM GEUVAR OLIVEIRA

https://www.facebook.com/GeuvarOliveira

Lorem Geuvar Oliveira é natural do Maranhão, mora no Tocantins desde 1997. Graduado em Letras pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) e em Teatro pela Universidade Federal do Tocantins (UFT). É membro da Revista Pirralha. Em 1980 desenhou o faroeste Matt Bill. Sua primeira HQ foi publicada em 1997, na revista Gira. Criou Quadrinhos da Liga do Cerrado (Homem Suvaco, Maria Paulada, Jeitosa, Homem Pochete, Homem Pichilinga, Senhor Gambiarra e Caryocal), Viagem ao Centro da Gramática e a trilogia Mugambi. É fundador da GComics, que tem o objetivo de representar o Brasil da cultura pop através de quadrinhos e livros. Nos anos 90, começou a produzir quadrinhos para o mercado publicitário e depois quadrinhos independentes. Geuvar trabalhou como chargista em diversos jornais impressos e em agências de publicidade como ilustrador e criador. Atualmente trabalha no seu grande projeto, uma HQ sobre um personagem iorubá.

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AQC entrevista: Maria Luiza Nery sobre Henfil

Esta série de entrevistas é uma iniciativa da AQC em apoio ao livro “Sick da Vida”, coletânea de entrevistas do cartunista Henfil organizadas pelo quadrinhista, jornalista, escritor e biógrafo Gonçalo Silva Jr. O livro foi lançado na plataforma Catarse pela Editora Noir. Por isso, pedimos que você apoie, compartilhe e comente. https://www.catarse.me/henfil

1. Como você conheceu o trabalho do Henfil?

Foi pelos anos 1974 ou 75. Eu estava terminando o Colegial (hoje Ensino Médio – acho) ou começando a faculdade de Psicologia, e sempre que dava ia ao Centro velho de SP em busca de novidades: a MAD americana, as primeiras revistas de informática, Pasquim… Conheci o trabalho do Henfil primeiro no Pasquim, depois as revistas. E ainda tenho vários exemplares!

2. Qual foi o impacto inicial?

O que mais me chamou a atenção foi o traço, tão rápido, tão urgente, como se o tempo fosse pouco, e cada vez menor, para colocar o que pensava, via e sentia no papel. Impossível não sentir a urgência no e do traço.

3. O que chamou mais atenção: o humor escrito, as gags visuais ou o traço?

Principalmente o traço, mas em segundo lugar pertíssimo foi a percepção do mundo ao redor. Até hoje lembro de duas situações: a Graúna e o Bode Orelana caçando corruptos com uma visão bem seletiva de corrupção, e o Fradinho Baixinho sem entender a relação do Cumprido com a mãe, que era diametralmente oposta à que ele vivia.

4. Seu trabalho teve influência direta? Se teve, em que sentido?

Acho que me deixou mais atenta ao mundo e suas diferenças? E mais atenta ainda a mim, para respeitá-las. E, num outro nível, atenta às desigualdades. Embora não ganhe parcelas do orçamento secreto, estou sempre apoiando causas com as quais me identifico. Uma das minhas preferidas é o Pimp my Carroça.

5. Qual foi a impacto dos Quadrinhos e Charges do Henfil na Imprensa Sindical?

Sobre esse impacto eu sou totalmente Glórias Pires: não tenho condições de opinar. Mas acho que pelo menos um ou dois colegas de faculdade começaram a ler Pasquim e Henfil por minha causa. Até onde lembro, era a única a ter e ler essas publicações por lá.

6. Acompanhava as entrevistas do Henfil na Imprensa?

Essa eu vou ficar devendo. Lembro pouquíssimo das entrevistas do Henfil, uns flashes de quando o irmão dele (Betinho) voltou do exílio.

7. O que achou da iniciativa da Editora Noir em reunir estas entrevistas em um livro? Que efeito acha que este livro terá em você e nos demais leitores?

Amei a iniciativa, tanto que contribuí no Catarse. Em mim o efeito será de descoberta pois, como respondi acima, quase não acompanhei as entrevistas dele. E, para as novas gerações, será a oportunidade de conhecer alguém que pensava muito além de caixinhas e da sua época.

8. Henfil era um profissional multimídia, atuando na TV e no Cinema. O que achou das produções do cartunista em TV Homem e Tanga, deu no New York Times?

Eu assistia TV Homem sempre que possível, e gostava da maneira como ele provocava as pessoas a pensarem além do óbvio. Mas não assisti Tanga.

9. Pra você, qual é o tamanho da falta que Henfil faz?

Neste deserto em que querem nos transformar, ele faz uma falta imensa. Pensar e provocar está cada vez mais raro aqui.

10. As novas gerações conhecem pouco do trabalho do Henfil e ainda é pouco compartilhado nas redes. O que fazer pra melhorar isso? O livro organizado pelo Gonçalo Jr pode ajudar?

O livro pode ajudar, desde que divulgado de modo a atrair essa moçada. Investir o máximo possível nas redes que eles mais usam, tipo TikTok, de maneira tão anárquica quanto o próprio Henfil, deve ajudar.

11. O Brasil hoje está ‘sick da vida’ com tantos ataques à democracia, à inclusão social, racial e de gênero, à distribuição de renda? Ou a coisa precisa piorar mais pro povo reagir?

Está sick, está puto, está farto… ou sou somente eu? Ou a prioridade máxima, colocar alguma coisa, qualquer coisa, no prato da família está deixando a reação no final da fila? Sinceramente, não sei o que ou como responder.

12. Como Henfil estaria reagindo à sanha fascista, totalitária e anti-democrática que abocanhou os três poderes?

Estaria usando seu talento monstro para denunciar, apontar, ridicularizar. E certamente estaria colecionando processinhos baseados na (ainda bem!) falecida LSN movidos pelos capachos daquele um que obraram no Planalto.

13. Henfil foi um dos fundadores do PT, que se propunha a transformar radicalmente a sociedade. Esta décima terceira pergunta é o espaço pra suas considerações, não finais, mas futuristas. É possível ainda transformar o país de forma radical? O humor entra nisso?

Do meu lado do balcão, de simples consumidora apaixonada de artes gráficas, humor é termômetro da época em que é feito, e pode ser um registro claro, crítico e apaixonado do que se vive e do que se vê que pode alimentar nas pessoas o desejo de mudança. Mas o humor como “guia” de mudança eu acho mais complicado. Já temos líderes, salvadores, pais e mães da pátria demais, todos vendo as pessoas como criancinhas incompetentes que precisam ser levadas pela mão até a verdade redentora. Prefiro uma arte instigante, que faça pensar, que abale certezas, ao invés de uma que mostre um único caminho que é verdadeiro apenas para quem o indica.

CONTATO COM MARIA LUIZA NERY

mlnery@uol.com.br

Psicóloga que também tem graduação em Música porque tinha uns planos que mudaram depois. Tem mestrado em Saúde Pública, mas não fez doutorado porque bateu de frente com a orientadora. Foi psicóloga no hoje HFASP (Hospital de Força Aérea da Aeronáutica de São Paulo) desde uns anos depois de se formar até 2012, quando foi para a reserva, e desde então trabalha como tradutora. Sempre foi apaixonada por aprender, estudar e descobrir, e pretende continuar aprendendo, estudando e descobrindo pelos próximos milênios. Sobre a Aeronáutica, esqueçam os estereótipos; durante aqueles anos desenvolvi com as outras psicólogas (grandes amigas até hoje) vários projetos e trabalhos que nem de longe envolveram pintar árvores e guias de calçada mas que, dentre outros resultados práticos e diretos, inclusive para não militares, ofereceram chances reais de crescimento aos recrutas que, eles sim, estavam sempre retocando a pintura debaixo do sol quente.

https://www.instagram.com/nerymarialuiza/

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AQC entrevista: Crau da Ilha sobre Henfil

Esta série de entrevistas é uma iniciativa da AQC em apoio ao livro “Sick da Vida”, coletânea de entrevistas do cartunista Henfil organizadas pelo quadrinhista, jornalista, escritor e biógrafo Gonçalo Silva Jr. O livro foi lançado na plataforma Catarse pela Editora Noir. Por isso, pedimos que você apoie, compartilhe e comente. https://www.catarse.me/henfil

1. Como você conheceu o trabalho do Henfil?

A primeira vez que li aquele nome estranho (Ênfil? Rênfil? Enfíu?) no livro Dez em Humor eu, era criança ainda. Depois descobri que estava também no Pasquim, que a passava de mão em mão, assim como o tablóide Grilo, que pirateava todos os gringos do underground. Isso acontecia no colégio técnico Iadê (de desenho de comunicação) e arredores, onde prolongávamos o expediente estudantil, o bar Riviera. O Iadê por sinal produziu vários profissionais engajados. Eram nossos contemporâneos e colegas os cartunistas Sizenando, João Zero (fanzine Boca), Patrícia (revista Crás), Grillo (Notícias Populares), e a Crau aqui. Todos a seu modo tiveram influência do Henfil. A gente fazia curso extracurricular de teatro e eles encenavam os Fradins. Muito legal, aquele jeitinho sádico do Baixim, tudo feito ao vivo, isto me marcou bastante. Também vieram do Iadê o articulador da classe Alfredo Nastari (AGRAF), os jornalistas Silvia Poppovic e o Luiz Fernando Silva Pinto. Era muito forte a expectativa de você ser atuante. Dentro do colégio tinha um pensamento único e geral de que aquela situação de ditadura não podia persistir. Todo mundo tinha visão de esquerda, na vida mesmo, na forma de se relacionar e na arte. Era um publico adolescente aberto à influência da esquerda e de todos os movimentos modernos, de Jean Paul Sartre, da escola de Frankfurt, aos tropicalistas e a turma do Pasquim. A gente tinha uma visão muito avançada para época, se dizia vanguardeira. Vale lembrar que era a época da ditadura bem fechada e que a gente tangenciou o perigo em várias circunstâncias. Mas nesse contexto sombrio também brotavam movimentos nacionalistas libertários como o dos Secos e Molhados, dos baianos, de Milton Nascimento. Boa parte da juventude da época se sentia alinhada a todo esse movimento.

2. E qual era sua proximidade dos movimentos de cartunistas na época e depois?

Você sabe que, exceto nas ocasiões em que participei de projetos específicos como O Bicho, As Periquitas, 2º Encontro Lady’s Comics (mesa “As Precursoras”) e agora na Revista Pirralha, grande parte da minha vida estive bastante periférica em relação a todos esses movimentos, o que não me impediu de acompanhar à distância. Como a categoria dos cartunistas foi a primeira que me acolheu profissionalmente, em idade pouca, quase saindo das fraldas, sempre me senti parte da turma e, talvez por isso, acabei estando presente em outros momentos pontuais, específicos que se me gravaram indelevelmente na memória.

3. Qual foi o impacto dos Quadrinhos do Henfil que você sentiu?

Do ponto de vista profissional, não preciso dizer que o conhecia como qualquer um de nós: um mito sagrado. A princípio confesso que o sadismo do Fradim baixinho me chocava. Mais tarde me ocorreu que o cumprido seria o Betinho e Henfil o baixinho, com toda sua irreverência.

4. O que você mais lembra do Henfil?

O que eu consigo me lembrar do Henfil, além do seu programa de manhã na Globo. Lembro em especial de um no dia do casamento da Lady Di. Depois de sua morte, no primeiro Salão do Rio de Janeiro que levou seu nome. Este Salão ficava em algum lugar na Vieira Souto, em Ipanema. Parece que ele vivia em um apartamento, praticamente sem móveis, por ali também.

5. E você chegou a estar com Henfil?

Apesar de já ter estado perto dele algumas vezes (por alguns instantes) quando a redação do Bicho era n”O Pasquim, no segundo andar da casa da Saint Roman. Para mim, uma guria de 19 anos que tinha acabado de chegar, ele era uma entidade sagrada, além de muito bonito, mas que eu tinha vergonha de abordar.

6. Ele trabalhava junto com todo mundo no Pasquim?

Não, ele trabalhava incessantemente e sozinho numa sala vizinha à sala do Bicho, no segundo andar, e só entrava na nossa para usar a máquina copiadora Xerox. Me olhava com olhos prescutadores e profundos, se nos cruzávamos na escada, por exemplo. Eu arregalava os meus e uma vez ele perguntou se eu estava assustada. Foi a primeira vez que me dirigiu a palavra. Na hora do café, todo mundo -cartunistas, editores, secretarias, os moços do escritório, o vigia- ia para a cozinha, que tinha uma porta que abria para a vista do morro. Alguém sempre tinha comprado pãozinho fresco com manteiga e tomávamos com o copo de café com leite mais gostoso do mundo. Lembro de ser um momento de muita camaradagem -em que as diferenças se acabavam- e o que eu mais fazia era observá-los. Henfil tratava a todos com muita amizade e respeito, sobretudo os funcionários mais humildes.

7. E o reencontrou mais alguma vez?

Anos depois, ao voltar da China, encontrei-o em Piracicaba, Ele veio e sentou-se ao meu lado na platéia do anfieatro que ouvia o Nássara. Naquele ano, creio que 1977, eu ja não morava no Rio. O Henfil. me fez uma festa, como se já tivéssemos sido bastante íntimos. Me abriu um sorriso “Você por aqui?” Eu já mais desinibida, respondi: ” E você por aqui?” E eu quis saber sobre a China. Ele estava realmente impressionado. Mais um par de anos à frente vi-o num fim de semana na colônia de férias no sindicato dos metalúrgicos, na Praia Grande, durante um encontro com lideres sindicais para o qual que Laerte me convidou e me levou a participar. Henfil demorou a chegar porque havia tido um acidente e precisou receber uma transfusão de sangue no hospital. Mas veio, chegou com uma bengalinha e participou do encontro. Acho que cheguei a jogar ping pong com ele. Ao menos lembro dele no pátio, perto da mesa. A ideia que me passava é que ele era de uma humildade impar. Estava nessa reunião na posição de ouvinte. Só queria saber quais eram as reivindicações dos trabalhadores para ele poder desenhar o Ubaldo, o paranóico.

8. Acompanhava as entrevistas do Henfil na Imprensa?

A entrevista que ele deu que mais me marcou foi a da revista O Bicho sobre sua estadia nos EUA, a relação dele com os Syndicates. Na época a gente estava na luta contra a dominação do Quadrinho estadunidense nas tiras de jornais brasileiros e em prol de publicar uma revista de cartuns e quadrinhos não-enlatados. Essa era a discussão que estava na pauta do dia pra gente. Então quando ele veio com aquela entrevista “Fiquei Sick da vida, meu irmão” e ele dizia que tinha ido lutar contra o Syndicate por dentro. Ele tinha muita consciência da luta contra o sistema e achava que ia romper com o capitalismo por dentro. Ele tinha muita fé neste poder do cartum e do desenho de humor em transformar consciências e mudar a realidade. E dizia “Eu indo nos EUA e sendo publicado lá por uma agência, eu conseguiria ser publicado no meu país”. Mas eu lia tudo que ele publicava no Pasquim e alguns dos livros que ele escreveu: Diário de um Cucaracha, Henfil na China. Ahhh e o livrinho pequeno “Como Se Faz Humor Político” entrevista que ele deu ao jornalista e crítico musical Tárik de Souza. Lá ele falava que a inspiração dele era um cachorro preto atrás das costas: o prazo do fechamento do jornal. Ele falava da experência dele em produzir charges e quadrinhos. A gente sempre tem aquele complexo de fazer as coisas de última hora. E chargista de jornal é de fazer as coisas em cima do prazo, em cima da última notícia, na hora que está pra ir pra gráfica. Às vezes dá uma sensação de inadequação, de deixar pra última hora. Isso faz parte do processo do cartunista, então dá bem pra imaginar que a hora do ‘fechamento’, o ‘dead line’ é um baita de um cachorrão nas tuas costas -pronto pra te devorar- tem uma plaquinha na coleira escrito ‘PRAZO’. E você faz o desenho naquela tensão, e acaba dando uma característica no traço, mais rápido e mais espontâneo. Isso me marcou muito. Em outra entrevista que ele deu, não lembro aonde, ele reclamava de pessoas que faziam gestos por reflexo condicionado, automáticos. Ele se irritava muito com isso, achava que cada gesto tinha de ser pensado.

9. Qual é o tamanho da falta que o Henfil faz?

É o tamanho da falta que faz um luzeiro, um clarão de muito brilho. Henfil foi um dos luzeiros das nossas gerações. Ele marca uma época. Representou a cara do Pasquim e continua muito atual. É uma falta enorme. Senti sua perda como a perda de uma amizade querida que eu não teria mais chance de desenvolver. Enfim. HENFIL é referência, era e continua a ser aquela sumidade a quem os cartunistas recorrem tentando imaginar o que ele faria se estivesse aqui. O Henfil era muito alerta pra vida, acho que tinha a ver com a condição de hemofilia dele, como se a vida estivesse sempre escorrendo por entre os dedos e tivesse que estar muito atento pra não deixá-la escapar. Isso fazia dele um cartunista único, com otraço completamente caligráfico de quem escreve rápido, que influenciou gerações de cartunistas. O que seria de nós sem Henfil?

10. Henfil era um profissional multimídia, atuando na TV e no Cinema. O que achou das produções do cartunista em TV Home e Tanga, deu no New York Times?

Não vi nada dele no cinema. Eu já estava fora de São Paulo. Mas via TV Homem, dentro do programa TV Mulher da Marília Gabriela. Eu assistia todo dia e achava bem legal. Ficava feliz de vê-lo na TV, de ver o que estava fazendo. Lembro que encenavam uns quadros praticamente sem palavras. O quadro que me lembro era o do casamento da Lady Di, tinha uns caras todos vestidos de operários, começava a passar o casamento da Diana e príncipe Charles na TV, daí cada um pegava um companheiro e começavam a dançar uma valsa. Achei aquilo o maior barato. Fiquei refletindo como ele mostrava essa realeza no imaginário da população, que lhe chamava tanta atenção e desviava o foco de assuntos mais importantes e vitais. Mostrava um encantamento e alienação. Eram coisas que faziam a gente pensar. Henfil é isso: faz a gente pensar. Quem cumpre este papel hoje em dia é a cartunista Laerte. A charge dela não se esgota ali, você acaba sacando mais alguma coisinha. O Henfil, de outra forma, era mais panfletário mesmo! Todos trazendo isso da sua forma. É como se fosse a mola do pensamento que desperta. Isso não pode morrer jamais.

11. As novas gerações conhecem pouco do trabalho do Henfil e ainda é pouco compartilhado nas redes. O que fazer pra melhorar isso? O livro organizado pelo Gonçalo Jr pode ajudar?

A gente tem de compartilhar, compartilhar e compartilhar! Eu confesso que não sou uma pessoa muito compartilhadeira não, fico muito cansada com estas coisas de redes sociais, mas o sticker da Graúna com o coraçãozinho é o que mais uso quando quero enviar um coração pra alguém. Este livro editado pelo Gonçalo Jr e Editora Noir pode ajudar muito. A gente divulgado este livro, vai colocando as pessoas em contato com o Henfil. Não sei se o livro tem ilustrações, deve ter né? Mas é bem importante sim pra conhecer tudo que ele fez, pensou e disse. É desses autores que a gente tem que mergulhar e conhecer tudo que fez pra entender uma parte da história, do Brasil. Eu gosto de mergulhar em autores, agora estou mergulhando na Isabela Allende, quero ler tudo que ela escreveu, e comecei a ter acesso a seus livros só recentemente. Henfil? A nova geração tem que abocanhar mesmo.

12. O Brasil hoje está ‘sick da vida’ com tantos ataques à democracia, à inclusão social, racial e de gênero, à distribuição de renda? Ou a coisa precisa piorar mais pro povo reagir?

O Brasil tá doente sim. Tá puto da vida também. Mas eu acho também que os anticorpos estão em ação, né? Eu não tinha visto tanta juventude engajada como tenho vistohoje. E tá abrindo a cabeça para uma visão social. Eu acho que está ficando cada vez mais feio ser uma pessoa alienada. Por isso o Brasil tá sick da vida, tá puto, tá resistindo e tá reagindo, no sentido de responder a isso tudo. Existe o câncer e existe os combatentes ao câncer, estamos deste lado e não vamos largar mão!

13. Como Henfil estaria reagindo à sanha fascista, totalitária e anti-democrática que abocanhou os três poderes?

Imagine se ele estivesse aqui, agora. Ele estaria à toda, produzindo mais do que nunca. Estaria em campanha em todas as mídias. Estaria na rua, em tudo quanto é lugar. Estaria mais ativo do que nunca e formulando outras formas de agir, outras ideias, estratégias. Ele continuaria a ser um militante full-time. Temos chargistas geniais, criticando o que está acontecendo, a gente os vê toda hora, brilhantes. Mas este engajamento dele muito dirigido, uma pessoa que não tinha nem móvel na casa, vivia pro desenho e pra conscientizar as pessoas. Não sei se temos alguém com este engajamento que ele tinha. Lembro dele no Pasquim, ele não tinha tempo nem pra conversar. Era ele desenhando o tempo inteiro. Desenhando, desenhando, desenhando. A gente passava pela sala com a porta aberta e só via ele de costas. Todos nós estamos segmentados em nosso interesses. Não sei qual de nós é assim… Mas tenho uma certeza, se Henfil estivesse entre nós, em carne, osso, estaria na Revista Pirralha! https://www.facebook.com/RevistaPirralha

https://revistapirralha.com.br/

https://www.instagram.com/revistapirralha/

14. Henfil foi um dos fundadores do PT, que se propunha a transformar radicalmente a sociedade. Esta décima-quarta pergunta é o espaço pra suas considerações, não finais, mas futuristas. É possível ainda transformar o país de forma radical?

O fato do Henfil ser um dos fundadores do PT é um ponto importante pra se levar em conta, principalmente os que falam mal do partido. É bom lembrar que as melhores cabeças estiveram neste início do processo de redemocratização. Vários operários, sindicalistas, intelectuais como Florestan Fernandes e vários artistas como Henfil e muitos cartunistas, gente de todas vertentes e alas, né? Vieram de caminhos distintos, articulações distintas. Uns mais à esquerda, mais revolucionários, outros mais conciliadores. O PT foi o celeiro onde foi colocada toda essa gente que estava descontente e queria mudança. Na época o PT era visto como uma grande promessa, o Lula já despontava como uma liderança naqueles comícios no estádio de S. Bernardo do Campo. Isso aí eu vi no comecinho, quando participei daquele encontro durante o fim de semana na colônia de férias na Praia Grande. A carga emocional de união que tinha ali era enorme, mesmo pra quem estava só observando, mostrava que você estava ali tomando partido. Eram jornalistas e cartunistas misturados aos sindicalistas, conversando junto sobre o que estava acontecendo, tomando café junto, comendo junto, bebendo junto, dormindo junto e formulando os materiais que iam ser produzidos nos jornais sindicais e grande imprensa. Acho super importante conhecer esta realidade e acordar esta turma que fica falando bobagem por aí. Aliás, eles nem pensam no que falam, só repetem as bobagens que alguém plantou. Existe tanto anti-petismo baseado em fatos duvidosos divulgados amplamente pela imprensa. Demonizar um partido que tem uma história dessa é, no mínimo, falta de bom senso.

Como foi a sua participação na administração petista da prefeitura de Ilha Bela?

Quando começaram as denúncias do Mensalão eu estava filiada ao PT aqui na Ilha Bela, ajudando a candidata do PT à prefeitura. Nós fizemos uma reunião pra todo mundo decidir o que ia fazer. Estava todo mundo chocado. Eu entendi que o mensalão tinha sido a única forma de garantir votação de pautas sociais, não entendi como corrupção individual. Penso que não é assim que tem de ser. Alguns pularam fora e a gente achou que não, a gente tinha entrado com o propósito de fazer uma coisa séria. O fato de algumas pessoas terem feito coisas erradas, não queria dizer que todos filiados fossem venais. Depois foi esvaziando e não elegemos mais ninguém. O povo aqui da Ilha sempre foi muito ligado à classe dominante, se sente bem assim, se enontra na praia, não gostam de confronto… O PT foi fundado duas vezes aqui na Ilha e participei das duas. Perguntaram para uma senhora da idade da minha mãe por que ela estava se filiando ao partido e ela respondeu: “Porque eu tenho vergonha na cara!” O PT era um baluarte de ética na época. Apesar da gete saber que nem todas pessoas que estavam lá pensavam da mesma maneira. Tem quem entre na política de forma individualista ou corporativista. E acho que um governo que represente o povo brasileiro não pode ser corporativista, tem que ver a sociedade como um todo, ver todas as forças, considerar a parte ambiental que sustenta tudo. Nós temos que pensar como construir este governo enquanto sociedade civil participativa, enquanto membros de partidos que tenham algum poder, a gente tem que ajudar a reconstruir, remendar este Brasil, ressuscitar este Brasil. A gente tem este dever, porque nossos netos estão aí, né? O que vamos deixar pra eles?Tem uma humanidadezinha aí pra sobreviver, né? E um planetinha azul… Tomara que a maioria deles seja bem educada, bem consciente.

QUEM É CRAU DA ILHA

Crau França é formada em Engenharia de Aquicultura na UFSC e Tecnologia em Produção Multimídia no Centro Universitário Módulo, estagiária na empresa Hellenic Centre for Marine Research, fez Mestrado em Aquicultura no Instituto de Pesca -APTA-SAA-SP, foi diretora da CooperAqua, Secretária da Prefeitura de Ilhabela. Publicou cartuns e foi editora na revista O Bicho. Foi idealizadora e editora de arte na empresa Revista As Periquitas. Faz parte do Conselho Editorial da Revista Pirralha. Recebeu o Troféu da AQC como Mestra do Quadrinho Nacional no 36.º Prêmio Angelo Agostini.

Perfil no FB:

https://www.facebook.com/crau.dailha

Crau no instagram:

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Entrevista:

https://ofolhademinas.com.br/materia/32285/coluna/crau-e-as-periquitas

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AQC entrevista: Milton Gurgel (*) sobre Henfil

Esta série de entrevistas é uma iniciativa da AQC em apoio ao livro “Sick da Vida”, coletânea de entrevistas do cartunista Henfil organizadas pelo quadrinhista, jornalista, escritor e biógrafo Gonçalo Silva Jr. O livro foi lançado na plataforma Catarse pela Editora Noir. Por isso, pedimos que você apoie, compartilhe e comente. https://www.catarse.me/henfil

1. Como você conheceu o trabalho do Henfil? Lembra da ocasião (onde, quem apresentou e qual era a revista ou jornal)?

Lendo o Pasquim.

2. Do que você mais lembra de ver no jornal?

Lembro do Bode Francisco Orelana, de quando ele foi morar em Natal (RN). E quando ele dizia “O Rio tem uma Ipanema. São Paulo tem 200.

3. O que chamou mais atenção o humor escrito, as gags visuais ou o traço?

Os escritos, no visual sou meio retardo.

4. O trabalho do Henfil teve influência direta em você? De que forma?

Na PUC, no movimento estudantil… HENFIL era comentado em prosa e verso.

5. Qual foi a impacto dos Quadrinhos e Charges do Henfil na esquerda? E entre seus amigos? Quais eram os comentários das pessoas?

Os trabalhos do Henfil eram elogiados, de forma quase unânime. Só teve uma vez que ele criticou o Caetano, por conta do movimento Odara… deu um tereré! Mas passou logo…

A música Odara (gravada no disco Bicho de 1977) foi um dos maiores sucessos de Caetano após sua passagem pela Nigéria. Parte da militância de esquerda na época não gostou da mensagem, pois a luta contra a ditadura estava no auge. De acordo com Caetano em seu site: “Nova polêmica se instaura. O termo odara acabara se tornando sinônimo de hippie, ou, para a ala dos esquerdistas, alienado; os odaras, por sua vez, responderão aos que lhe cobram posicionamentos políticos explícitos, chamando-os de patrulheiros ideológicos. Uma atualização da divisão entre os tropicalistas e os engajados da MPB, dez anos depois do movimento.” Já em 1978, Henfil reaqueceu as vendas do semanário ao abrir polêmica com os baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Glauber Rocha, aos quais acusava de “alienados” por externarem simpatias, em maior ou menor grau, com a abertura “lenta, gradual e segura” do general Geisel. Na contenda, Henfil cunhou a expressão “patrulha odara” como contraponto às “patrulhas ideológicas”, expressão usada pelo cineasta Cacá Diegues para definir o que ele considerava equívocos de esquerda patrocinados pelo sectarismo ideológico. Os patrulheiros odaras exigiam criações apolíticas e atitudes escapistas.

A palavra Odara vem do dialeto yourubá e quer dizer ‘estar bem, relaxado, tranquilo’.

6. Pra você, qual é o tamanho da falta que Henfil faz?

INFINITA enquanto dure.

7.Como era a situação do tempo do Pasquim comparada com a de hoje?

No tempo do Henfil não tinha essa direitosa, as pessoas tinham vergonha de ser assim.

8. E a pressão da Ditadura?

O cineasta Glauber Rocha sofreu muito. Henfil também iria sofrer demais.

9. O Brasil hoje está ‘sick da vida’ com tanto ataque deste atual governo. O Brasil tem saída além do aeroporto?

A História é circular, dizem alguns autores. Ver ai: Chile, Argentina, México, tudo voltando para esquerda. O difícil, mas muito difícil mesmo, é mudar a estrutura do capital.

10. Como Henfil estaria reagindo à sanha fascista, totalitária e anti-democrática que abocanhou os três poderes?

Sofrendo muito. Ele era hemofílico.

11. Henfil foi um dos fundadores do PT, que se propunha a transformar radicalmente a sociedade. Esta décima terceira pergunta é o espaço pra suas considerações, não finais, mas futuristas.

A produção de um artista representa o espírito de uma época. Nos anos 70, 80 tínhamos esperança. Hoje tenho certeza, o Brasil não tem amanhã.

MILTON GURGEL

Foi militante do movimento estudantil durante a ditadura. É advogado.